O estudo que revelou por que executivos sacrificam valor para "entregar o número"

Um dos artigos mais citados da pesquisa contábil perguntou a centenas de executivos como eles decidem o que reportar. As respostas explicam muito do que você vê no mercado.

Esta seção do Wesly faz uma coisa simples de enunciar e rara de encontrar: pega pesquisa científica de verdade e responde à pergunta que a academia raramente responde, que é “e daí?”. Começamos por um clássico, um dos artigos mais citados da história da pesquisa contábil, porque ele explica um comportamento que você vê no noticiário toda semana.

O estudo

John Graham e Campbell Harvey, da Universidade Duke, e Shivaram Rajgopal, então na Universidade de Washington, publicaram em 2005, no Journal of Accounting and Economics, o artigo “The economic implications of corporate financial reporting”. Em vez de olhar apenas para os números publicados, eles fizeram o que quase ninguém fazia até então: perguntaram diretamente aos executivos como as decisões de reporte são tomadas.

Como foi feito

A pesquisa combinou um survey com cerca de 400 executivos financeiros (CFOs e equivalentes) de empresas americanas e entrevistas em profundidade, e o anonimato permitiu respostas de uma franqueza rara sobre um tema delicado, que é o que uma empresa faz para entregar o número esperado pelo mercado.

O que descobriram

Três achados envelheceram assustadoramente bem. Primeiro, o lucro contábil é a métrica rainha, porque os executivos declararam se importar mais com o lucro por ação do que com o fluxo de caixa na hora de reportar, já que é o lucro que o mercado observa e cobra. Segundo, a maioria sacrificaria valor para suavizar resultados, preferindo uma trajetória de lucros estável a uma volátil mesmo abrindo mão de valor econômico para isso. E o terceiro é o mais desconfortável: a maior parte admitiu que recusaria ou adiaria um projeto lucrativo, bom para a empresa no longo prazo, se ele fizesse a empresa errar a meta de lucro do trimestre, então cortar despesa boa (pesquisa, manutenção, marketing) para fechar o número não era exceção, era prática assumida.

Em resumo, a maquiagem de resultados raramente é a fraude cinematográfica que o noticiário sugere; é uma sequência de decisões operacionais reais, um corte aqui e um adiamento ali, tomadas para que o número reportado conte a história esperada, logo o custo é invisível no balanço e real na empresa.

E daí? Para quem decide

Se você analisa empresas para investir, dar crédito ou fazer parceria, desconfie de lucros perfeitamente estáveis em negócios naturalmente voláteis, porque estabilidade demais pode ser gestão de expectativa, e não de operação, então olhe o caixa junto com o lucro.

Se você toca uma empresa, saiba que o mecanismo do estudo mora em qualquer painel de metas: quando o bônus do time depende de um indicador, o time passa a gerenciar o indicador, e nem sempre o negócio, logo toda meta numérica precisa de um contrapeso que meça o que ela incentiva a sacrificar.

E se você é contador, o seu papel de guardião da qualidade da informação tem base empírica, porque a pressão para “ajudar no número” existe e está documentada há vinte anos, então é exatamente por isso que a assinatura do profissional vale alguma coisa.

Ficha do paper: Graham, Harvey & Rajgopal (2005), Journal of Accounting and Economics, um dos artigos empíricos mais citados da área contábil.