IA na contabilidade, dia 4: classificar lançamentos no plano de contas e ensinar à IA o padrão de cada cliente

Como enviar o plano de contas e a lista de lançamentos para a IA e receber cada item com conta sugerida e grau de confiança, com os casos ambíguos separados para decisão humana e um gabarito que melhora a cada lote.

Dia 5 do mês, sete e meia da noite, o escritório já esvaziou e a tela mostra a cena que todo fechamento repete: o movimento do cliente convertido em lista, duzentas e tantas linhas esperando que alguém diga, uma por uma, em qual conta do plano cada despesa se encaixa, e você já sabe que o combustível vai para a conta de sempre, que a tarifa bancária vai para a conta de sempre, e que mesmo assim a noite vai embora repetindo decisões já tomadas centenas de vezes. Se os dados já saíram dos documentos e viraram lista, que foi o assunto do dia 2, o degrau seguinte é este: fazer a IA propor a classificação inteira e reservar para você só os casos que exigem julgamento.

O problema que ela resolve

A classificação de lançamentos é aquele trabalho traiçoeiro em que noventa por cento dos itens são rotina pura e dez por cento exigem a cabeça do contador, só que os dois grupos chegam misturados na mesma lista, então você gasta atenção de especialista em tarefa de carimbo. E vale nomear onde a maioria trava ao tentar usar IA nisso: no teste ingênuo, sem regras no prompt, a ferramenta classifica o mesmo posto de gasolina de três jeitos ao longo do lote, inventa conta que não existe no plano do cliente e decide sozinha o caso duvidoso, logo o contador conclui que aquilo não serve e desiste. O problema não está na ferramenta, está no pedido, porque a consistência e a humildade diante do ambíguo precisam ser exigidas por escrito.

O método em 4 etapas

Fluxo em quatro etapas: preparar o plano de contas resumido, listar os lançamentos anonimizados, colar o prompt com o gabarito e conferir o resultado atualizando o gabarito O ciclo completo: cada lote aprovado melhora o lote seguinte.

Etapa 1, prepare o plano de contas resumido. A IA só pode acertar dentro do cardápio que recebe, então cole no prompt apenas as contas de resultado que aquela empresa usa de fato, com código e nome, porque o plano completo, com centenas de contas que nunca recebem lançamento, mais confunde do que ajuda. Se o cliente é novo e ainda não tem plano, um plano padrão simplificado do seu escritório resolve o começo.

Etapa 2, monte a lista de lançamentos. Basta descrição e valor de cada item, e vale aqui o cuidado que abriu a série: nome de cliente, CNPJ e qualquer dado que identifique a empresa saem antes de o texto entrar em ferramenta externa, por sigilo profissional e pela LGPD (a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, Lei nº 13.709/2018), então “Restaurante Dom Sabor” pode ficar, mas o nome da empresa do seu cliente, não, e nome de pessoa física na descrição (o pró-labore nominal, o Pix para o autônomo) também sai, porque dado pessoal é protegido independentemente de identificar a empresa.

Etapa 3, cole o prompt com as três regras que mudam tudo. O modelo abaixo pede tabela com conta sugerida e grau de confiança por item, exige que lançamentos iguais recebam sempre a mesma conta, que é a regra que resolve a inconsistência do teste ingênuo, e obriga a IA a marcar como ambíguo, sem escolher por você, todo item em que mais de uma conta seria defensável.

Prompt pronto para copiar, com regras de consistência, grau de confiança por item, marcação de ambíguos e espaços para o plano de contas, o gabarito e a lista de lançamentos O prompt da casa: os três colchetes são o plano, o gabarito e a lista.

Etapa 4, confira, decida os ambíguos e atualize o gabarito. Aqui mora o achado mais valioso do dia: guarde num arquivo as classificações que você aprovou e cole essa lista no prompt do lote seguinte, porque a IA vai seguir o padrão dos exemplos, e a cada mês o gabarito daquele cliente fica mais completo. Essa técnica caseira tem nome na literatura científica, few-shot learning (aprendizado com poucos exemplos), e foi demonstrada em 2020 no artigo que apresentou o GPT-3 ao mundo, no qual os pesquisadores mostraram que um modelo de linguagem aprende uma tarefa nova a partir de poucos exemplos colados no próprio texto do pedido (no estudo original, de um punhado a algumas dezenas), sem nenhum retreinamento, logo o seu copiar e colar de classificações aprovadas usa exatamente o mecanismo descrito na pesquisa de ponta, e essa é daquelas coisas boas de contar ao colega no café.

O exemplo prático

Veja o método aplicado a uma lista de oito despesas comuns (os dados são fictícios, montados para o exercício):

Comparação lado a lado: a lista solta de oito despesas e a tabela devolvida pela IA, com conta sugerida, grau de confiança e dois itens ambíguos destacados para decisão humana Seis itens saem classificados com confiança alta; o almoço com cliente e o pagamento sem nota voltam marcados para o contador decidir.

Repare nos dois itens destacados, porque eles mostram a divisão de trabalho correta. O almoço com cliente pode ser refeição comum ou despesa de representação, e a dedutibilidade depende do contexto, já que o Regulamento do Imposto de Renda (o Decreto nº 9.580/2018, art. 311) só admite como dedutíveis, na apuração do lucro real, as despesas necessárias à atividade da empresa, então essa resposta exige conhecer o cliente, e não um modelo estatístico. O Pix sem nota, por sua vez, nem deveria ser classificado antes de o documento aparecer. A IA acertou justamente ao não responder, e quando você decidir os dois casos, a decisão entra no gabarito e o próximo lote já chega mais esperto.

Cuidados

O risco específico deste capítulo é o erro silencioso em escala, porque uma classificação errada num item isolado é detalhe, mas o mesmo erro repetido com consistência em doze meses de movimento distorce resultado, base de tributo e balancete de uma vez, logo a conferência por amostragem é parte do método, e não etapa opcional: confira todos os itens de confiança média e baixa e uma amostra dos de confiança alta, variando a amostra a cada lote. Vale também a regra permanente da série, a de que a IA erra com convicção de quem acerta, então grau de confiança alto é sinal para conferir mais rápido, nunca para não conferir, e a responsabilidade pela escrituração continua de quem assina.

Amanhã, no dia 5, a série sai do balancete e vai para a caixa de entrada: e-mails e comunicação com clientes, ou como transformar aquele recado difícil que você adia há três dias em mensagem clara, firme e educada em um minuto.